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Entrevista

  


 Nesta semana estamos entrevistando :

ANDRÉ MAURÍCIO DE OLIVEIRA, autor do livro FALA SÉRIO

André Mauricio De Oliveira 

GARCIA edizioni: Por que você resolveu escrever sobre como lidar com adolescentes?

André Maurício de Oliveira: Este projeto se iniciou há mais de 5 anos, a partir de um longo período de experiências coordenando um grupo de adolescentes na igreja onde cresci, na capital mineira. Sempre tive a percepção de que faltava no meio cristão – e mesmo fora dele, como nas escolas – um material que tratasse das necessidades específicas de um ministério com adolescentes a partir do ponto de vista de um líder e conselheiro, e que abordasse de forma satisfatória diversos assuntos que permeiam o universo do adolescente. Há muito empirismo e desconhecimento no meio das lideranças cristãs sobre esta idade, suas características e particularidades. Achei que poderia trazer uma contribuição, compartilhando minhas experiências e pesquisas com outros líderes ao redor do país.

GARCIA edizioni: Essa faixa etária é muito complicada e muitos reclamam que eles são indisciplinados e desatentos. Para você, o que trabalhar com adolescentes requer?

André Maurício de Oliveira: Esta é uma visão comum do que é o adolescente, embora nem sempre justa. Trabalhar com o adolescente requer estratégias e métodos diferentes daqueles que funcionam com os adultos. Muitas vezes o que compreendemos como uma atitude de rebeldia pode ser um pedido de ajuda, uma forma de expressar uma dor interior ou uma baixa autoestima. Adolescentes que aparentam ser desinteressados ou desatentos pode responder de forma muito positiva a estímulos emocionais e cognitivos, desde que o professor, líder ou orientador saiba lançar mão dos recursos adequados. Vou citar um exemplo: em meu livro menciono os diferentes estilos de aprendizagem que caracterizam alguns alunos considerados tímidos demais, indisciplinados demais ou dispersos demais para serem educados e aprenderem o necessário. Há adolescentes que normalmente se mexem o tempo todo durante a aula, e que poderiam ser bem aproveitados em atividades educativas que envolvam movimento, como o esporte ou o teatro. Há aqueles que gostam de recursos visuais, outros que apreciam atividades com música, e estes gostos e talentos devem ser aproveitados. O professor criativo tem à sua disposição um enorme leque de possibilidades, a fim de aprimorar seu trabalho e ajudar no crescimento do adolescente.

GARCIA edizioni: Quais as diferenças entre pregar para adultos, crianças e adolescentes? O que a sua vivência lhe permitiu observar?

André Maurício de Oliveira: Em geral, há uma crença de que o adolescente só pode ser alcançado pelo uso de uma linguagem coloquial, como muitas gírias e termos populares, ou pelo uso do humor, não sendo capaz de assimilar uma mensagem pregada em outras linguagens. Considero isso um equívoco, pois o adolescente moderno, exposto a tantas informações e culturas por meio da televisão ou da internet, tem a capacidade de compreender múltiplas linguagens fora de seu reduto. O pregador, palestrante ou professor deve encontrar um equilíbrio entre o uso de um vocabulário muito formal e um linguajar muito popular, de modo a não banalizar a mensagem e nem torná-la maçante, além de mostrar ao ouvinte que cada linguagem é apropriada a um ambiente e a um contexto. Outro ponto importante é encontrar o vínculo emocional que o adolescente tem com o assunto a ser abordado. O professor pode recorrer a suas experiências de vida e não ter receio de descrever como se sentiu em relação aos muitos conflitos pessoais pelos quais passou, e com os quais o adolescente se identifica, mostrando ao adolescente que ele, o líder, também tem suas dificuldades e compartilha isso sem querer parecer imbatível. A empatia ainda é um recurso precioso nas relações humanas.

GARCIA edizioni: Para você, é necessário combinar criatividade com disciplina para despertar o interesse dos jovens na pregação?

André Maurício de Oliveira: Acho que a disciplina no ouvir atentamente a uma pregação deve vir naturalmente, como fruto do interesse que o pregador é capaz de despertar na plateia acerca do assunto abordado, e neste aspecto, a criatividade é muito importante. Descobri isso há muito tempo, ministrando em cultos de adolescentes, quando percebi as vantagens de se usar no púlpito os mesmos recursos didáticos que davam certo em minha sala de aula na Escola Bíblica Dominical. Quem disse que o pregador não pode utilizar recursos audiovisuais como imagens, músicas, teatro ou gestos para ilustrar verdades espirituais? De certa forma, não era assim que Jesus ensinava às multidões, quando tirava elementos do dia a dia das pessoas para falar do Reino de Deus? O fato é que esta verdade simples foi esquecida por muitos pregadores, que ainda se preocupam mais em provocar emoções ou em se autopromover do que em instruir a outros.

GARCIA edizioni:  Como você foi percebendo o que dava certo e o que não dava no trabalho com as pessoas mais jovens?

André Maurício de Oliveira: Esta constatação vem ao longo do tempo, e acho que não seria capaz de definir uma época ou lugar. De certa forma, quando algo não funcionava bem, ou não atingia o objetivo proposto, os próprios adolescentes nos diziam isso, o que foi fundamental para que chegássemos a uma compreensão de como alcançar sua mente e alma. O importante é manter o diálogo, estar sempre disposto a ouvir e a reavaliar seu trabalho constantemente.

GARCIA edizioni: Houve teorias que você viu que não deram certo na prática e que o levaram a reavaliar seu modo de trabalhar?

André Maurício de Oliveira:  Sim. Uma destas teorias era a de que o único modo de se manter o adolescente na igreja, participando ativamente de tudo, era mantê-lo sempre ocupado com eventos e mais eventos. Fui ensinado que, enquanto o jovem estivesse atarefado com atividades religiosas, sua mente não se concentraria em aprender o que é errado e prejudicial a ele, o que é verdade apenas em parte. Ele se sentirá mais atraído pelo que lhe chama mais a atenção e que responde, mesmo que de forma errada, a seus questionamentos mais profundos. É assim que a mídia – guardadas as exceções – consegue tamanha atenção: pela repetição de conceitos e valores estranhos ao evangelho. Acabei percebendo que educar e ensinar através de um esforço diário, em lugar de promover eventos esporádicos, surtia efeitos duradouros, ao passo que o mero ativismo poderia ser apenas mais uma distração. É no ensino diligente da Palavra que damos um rumo ao jovem.

GARCIA edizioni: O que é necessário para que os jovens entendam que o que lhes está sendo ensinado é parte importante de suas vidas e se engajem no processo de aprendizagem, seja na educação ou na igreja?

André Maurício de Oliveira: Primeiramente, o líder deve procurar dar bom exemplo em tudo. Deve procurar aplicar estes ensinamentos a sua própria vivência cotidiana, e assim mostrar que seguir a verdade dá certo. O principal papel do discipulador cristão é mostrar que o cristianismo é relevante e atual, e que Deus se preocupa não somente com o curso do Universo, mas também com nossos problemas particulares. Se o líder for capaz de mostrar isso ao adolescente, este aprenderá a amar a Bíblia, a Igreja e, sobretudo, a Deus, aproximando-se dEle sem reservas. No plano secular, mesmo em um meio não cristão, em que o educador deve incutir valores que são cristãos em sua essência – ainda que não venham necessariamente em uma roupagem religiosa –, o princípio é o mesmo. Tornar o ensino relevante para o educando através do exemplo pessoal do educador.

Em segundo lugar, o líder jamais deve prescindir de um bom preparo. Ele deve estar sempre estudando e se atualizando, procurando conhecer melhor ao adolescente e seu mundo, sem perder suas próprias referências. Em vez de procurar agradar em tudo – o que é impossível – ele deve dar ao jovem a direção. É como um pai que, mesmo sabendo que o filho gosta de doces e odeia verduras, sabe que deve contrariá-lo às vezes para seu próprio bem, ensinando-o a apreciar o que é saudável para ele, até que ele tenha idade e maturidade suficiente para fazer suas próprias escolhas. Impor limites é um ato de amor. É assim que um líder cristão vocacionado cumprirá seu importante papel.

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Responsável pela entrevista:

ATENÉIA ARAÚJO - Autora dos livros: A princesa e o Dragão Prateado e Destino Implacável

 


Nossa próxima entrevista:

ANTONIO STELIO, autor do livro O AMOR É TRÁGICO

Em breve!

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